Quanto ganha um comissário de voo no Brasil — salário-base, adicionais e o que compõe o contracheque de quem voa
"Quanto ganha um comissário de voo?" é uma das primeiras perguntas de quase todo mundo que pensa em tirar a licença de Comissário de Voo (CMS), emitida pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). É uma pergunta legítima: você vai investir tempo e dinheiro em um curso homologado e em uma prova teórica, e quer saber o retorno. O problema é que a internet responde isso com números soltos, sem fonte e sem data — e você acaba planejando a carreira em cima de um chute.
Na prática, o comissário não recebe "um salário". Recebe um contracheque montado por partes: um salário-base que respeita o piso da convenção coletiva da categoria, adicionais ligados à escala que você voou naquele mês, diárias de pernoite e os direitos comuns a qualquer contrato CLT. Dois profissionais da mesma empresa, no mesmo cargo, podem receber valores diferentes no mesmo mês só por causa da escala.
Neste guia você vai ver, item por item, o que entra no contracheque de quem voa, como as diárias funcionam (e por que elas confundem tanto), o que muda entre aviação regular, regional e executiva e — o mais importante — o passo a passo para consultar você mesmo os valores oficiais e atualizados. Não vou inventar cifras: onde o número muda por ano, por empresa ou por convenção, eu mostro exatamente onde conferir.
Existe um salário único de comissário de voo?
Não existe. Quem responde essa pergunta com um número redondo, sem citar a fonte e a data, está chutando.
O que existe é um piso salarial negociado em Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) — o valor mínimo que uma empresa pode pagar para a função — e, em cima dele, uma série de adicionais que mudam a cada mês.
Três motivos fazem o número final variar bastante:
- O piso é renegociado periodicamente. Ele vale durante a vigência daquela convenção, contada a partir da data-base da categoria. Um valor de dois ou três anos atrás simplesmente não serve para hoje.
- Boa parte da remuneração é variável. Horas de voo, trabalho noturno, tempo de reserva e diárias de pernoite mudam de um mês para o outro conforme a escala.
- O segmento muda a estrutura do pacote. Aviação regular, regional e executiva remuneram de formas diferentes, e comparar só o salário-base leva à conclusão errada.
Por isso, a pergunta útil não é "quanto ganha um comissário de voo", e sim "como esse contracheque é montado e onde consulto os valores vigentes".
O que compõe o contracheque de quem voa
A Lei nº 13.475/2017 — a chamada Lei do Aeronauta — é a moldura da profissão: ela organiza jornada, limites de tempo de voo, repouso, reserva, sobreaviso e o direito a diárias quando você pernoita fora da base contratual. Os valores em reais, porém, vêm da convenção coletiva e do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) de cada empresa.
| Verba | O que é | De onde vem a regra | Fixa ou variável |
|---|---|---|---|
| Salário-base | Valor mensal do cargo; não pode ser menor que o piso da categoria | CCT / ACT da empresa | Fixa |
| Remuneração por horas de voo | Pagamento pelas horas voadas, em geral acima de um limite previsto em contrato | CCT / ACT | Variável |
| Adicional noturno | Acréscimo sobre as horas trabalhadas no período noturno | Lei do Aeronauta + CCT | Variável |
| Reserva e sobreaviso | Remuneração pelo tempo em que você fica à disposição da empresa | Lei do Aeronauta + CCT | Variável |
| Diárias de pernoite | Valor por pernoite fora da base, para alimentação, hospedagem e transporte | CCT / ACT | Variável |
| 13º salário, férias + 1/3, FGTS | Direitos de todo contrato CLT | Constituição Federal e leis trabalhistas | Fixa/anual |
| PLR e bônus | Participação em resultados, quando negociada | ACT da empresa | Variável |
| Benefícios | Plano de saúde, auxílio-alimentação, bilhetes com desconto | Política da empresa / ACT | Não entra no líquido |
Do bruto ainda saem os descontos de sempre: INSS, Imposto de Renda retido na fonte, coparticipação de plano de saúde, vale-transporte e contribuições autorizadas. É por isso que o valor que aparece em vídeo de rede social — quase sempre bruto e quase sempre incluindo diárias — não é o que cai na sua conta.
Uma observação importante sobre o adicional noturno: a legislação da categoria trata o trabalho noturno do aeronauta com regras próprias, que não são idênticas à regra geral da CLT. Percentual e janela de horário devem ser conferidos no texto atualizado da Lei nº 13.475/2017 e na convenção vigente.
Como consultar o piso salarial oficial (passo a passo)
Esse é o pulo do gato que quase nenhum artigo entrega. Você não precisa acreditar em ninguém — dá para ler a fonte primária:
- Abra o Sistema Mediador do Ministério do Trabalho e Emprego (mediador.mte.gov.br). É o repositório oficial de convenções e acordos coletivos registrados no país.
- Busque pelo sindicato profissional da categoria, o Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA), e pelo período de vigência que você quer. O site do SNA (aeronautas.org.br) também costuma publicar os instrumentos negociados.
- Localize a cláusula de piso salarial e as cláusulas de adicionais, diárias e reserva. Elas ficam separadas — leia todas, não só a primeira.
- Verifique se existe ACT específico da empresa. Grandes companhias negociam acordos próprios que podem ser mais vantajosos que a convenção geral.
- Confira a vigência. Toda CCT tem data de início e fim. Se a vigência já venceu, procure o instrumento seguinte antes de usar aquele número.
- Cruze com dados públicos de emprego formal. Os painéis do Novo CAGED e da RAIS, do Ministério do Trabalho e Emprego, permitem filtrar por ocupação. Busque "comissário de voo" na Classificação Brasileira de Ocupações (cbo.mte.gov.br) para achar o código certo e depois filtrar o painel por ele.
Um cuidado ao usar o CAGED: ele mostra, em geral, o salário de admissão do vínculo formal — ou seja, algo próximo do salário-base de entrada, sem adicionais e sem diárias. Serve como piso de realidade, não como retrato da remuneração total de quem já está na escala.
Como estimar a sua remuneração mensal
Com as fontes em mãos, a conta fica simples. A lógica é sempre esta:
Remuneração bruta do mês = salário-base + horas de voo remuneradas + adicional noturno + reserva/sobreaviso + diárias de pernoite
Para montar a sua estimativa:
- Anote o piso vigente da CCT ou o salário-base do ACT da empresa.
- Veja na convenção como as horas de voo são pagas: existe um limite contratual mensal? O que passa disso vira hora extra? Há adicional por hora voada?
- Calcule quantas horas da sua escala típica caem no período noturno definido para a categoria.
- Multiplique o valor da diária (doméstica e internacional são diferentes) pelo número de pernoites previstos na escala.
- Some tudo e só então aplique os descontos legais para chegar ao líquido.
Fazendo essa conta com números reais da convenção atual, você chega a uma faixa muito mais confiável do que qualquer número pronto da internet — e consegue comparar propostas de empresas diferentes de forma justa.
Diárias de pernoite: o item que mais confunde
A diária não é salário. Ela existe para cobrir despesas de quem dorme fora da base contratual: alimentação, hospedagem e deslocamento. A legislação trabalhista trata diárias para viagem como verba que, em regra, não integra a remuneração para efeitos de encargos (CLT, art. 457, § 2º, com a redação dada pela reforma de 2017).
Isso tem duas consequências práticas:
- A diária engorda o valor que entra na conta no mês, especialmente em escalas com muitos pernoites ou em voos internacionais, onde o valor costuma ser maior e pode ser referenciado em moeda estrangeira.
- Mas ela não costuma repercutir em 13º, férias e FGTS da mesma forma que o salário. Ou seja: dois pacotes com o mesmo total mensal podem ter valores anuais bem diferentes.
Quando alguém diz "comissário ganha X", quase sempre está somando diárias ao salário. Saber separar as duas coisas é o que diferencia quem entende a carreira de quem só repete número.
Aviação regular, regional e executiva: onde se ganha mais?
Não existe resposta única, porque o pacote muda de empresa para empresa. O que muda de forma previsível é a estrutura da remuneração:
| Segmento | Como a remuneração costuma se estruturar | Rotina típica |
|---|---|---|
| Aviação regular (grandes companhias) | Piso de CCT/ACT + peso alto de horas de voo, adicional noturno e diárias | Malha intensa, escala publicada, pernoites frequentes |
| Aviação regional | Mesma lógica da regular, mas com malha, tipo de aeronave e volume de pernoite diferentes | Trechos mais curtos, bases regionais, forte porta de entrada |
| Aviação executiva / táxi aéreo | Peso maior do salário-base e de acordos individuais; menos previsibilidade de horas | Voo sob demanda, escalas irregulares, equipes pequenas |
Regra de ouro na hora de comparar propostas: nunca olhe só o salário-base. Pergunte como são pagas as horas de voo, qual o valor da diária doméstica e internacional, como funciona a reserva e qual a base contratual — mudar de cidade para trabalhar pode consumir boa parte da diferença.
O que faz a remuneração crescer ao longo da carreira
- Tempo de casa e senioridade: muitas empresas têm faixas salariais progressivas em acordo coletivo.
- Função de chefe de equipe ou comissário líder: acumula responsabilidade e costuma ter remuneração diferenciada.
- Voos internacionais e aeronaves maiores: mudam a composição de horas, adicionais e diárias.
- Idiomas: inglês e um segundo idioma ampliam a escala de voos em que você pode ser alocado.
- Instrução e checagem: comissários experientes podem atuar em treinamento dentro da companhia.
- Disponibilidade: aceitar reservas e escalas menos disputadas tende a aumentar a parte variável.
E antes de tudo isso: a licença
Nada desse contracheque existe sem a licença. O caminho passa por curso de formação homologado, aprovação na prova teórica da ANAC, Certificado Médico Aeronáutico (CMA) válido na classe exigida para a função e o cumprimento dos requisitos do RBAC 63 — o Regulamento Brasileiro da Aviação Civil que trata das licenças de comissário de voo, entre outras. Os custos de curso variam por escola e região, e as taxas da ANAC mudam periodicamente: confirme ambos diretamente com a escola e nos canais oficiais da Agência antes de fechar qualquer conta.
Perguntas frequentes
Comissário de voo ganha por hora voada? Em parte. Existe um salário-base fixo, e as horas de voo entram conforme a regra da convenção ou do acordo da empresa — normalmente como pagamento pelas horas que excedem um limite contratual. A fórmula exata está no instrumento coletivo vigente.
A diária de pernoite entra no salário? Ela entra no valor recebido no mês, mas tem natureza indenizatória e, em regra, não integra a remuneração para efeitos de encargos, conforme o art. 457, § 2º, da CLT. Confira na CCT como sua empresa trata o tema.
Qual é o piso salarial do comissário de voo hoje? Esse valor muda a cada rodada de negociação e por isso não deve ser copiado de blog nenhum. Consulte a convenção vigente no Sistema Mediador do MTE e no site do SNA, sempre olhando a data de vigência.
Comissário de voo internacional ganha mais? Geralmente a composição é mais vantajosa, porque envolve mais horas, mais pernoites e diárias de valor diferente. Mas depende da empresa, da malha e do acordo coletivo — compare o pacote completo.
Preciso passar na prova da ANAC para ser contratado? Sim. A licença de Comissário de Voo (CMS) exige curso homologado, aprovação na banca teórica da ANAC e CMA válido. Sem licença, não há contratação para a função.
Próximo passo
Agora você tem o método: consulte a CCT vigente, identifique piso e adicionais, calcule as diárias da escala e compare propostas pelo pacote inteiro. Isso vale muito mais do que qualquer número pronto — e é o tipo de leitura que empresa nenhuma vai fazer por você.
Mas o primeiro cheque só chega depois da licença, e a licença passa pela prova teórica da ANAC. Essa é uma etapa perfeitamente vencível: a banca cobra um conteúdo delimitado e previsível, e quem estuda com constância e treina no formato da prova chega ao dia do exame com a resposta na ponta da língua. O melhor jeito de descobrir onde você está é responder questões no mesmo formato da banca. Você pode começar grátis com os simulados de demonstração do Simulados ANAC e, se quiser o acesso completo ao banco de questões, assinar quando fizer sentido para o seu cronograma. Comece hoje — a carreira que você está pesquisando começa nessa prova.
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